São Silvestre: antes, durante e depois.

O despertador, que raramente uso, me acordou as 3:40 AM da madrugada do dia 31 de Dezembro de 2018. Dormi em casa, sozinho. A família estava no sítio e meus primos já me aguardavam no hotel em São Paulo. Tomei meu primeiro café da manhã e segui de Uber para a rodoviária, onde peguei o ônibus das 5:00 AM para a capital.

O nervosismo já havia passado, a corrida que eu aceitei participar após meu primo me convencer durante um churrasco em sua casa, para que acompanhasse Lili, sua esposa, de 53 anos, cujo histórico inclui 3 São Silvestres, passou a me preocupar após o surgimento de um incômodo no joelho pouco mais de um mês antes.

Fui afobado e me precipitei ao tomar a atitude de tentar aumentar a velocidade em um curto prazo de tempo (8 semanas). Comecei a correr em Jul/2016, com frequência de pelo menos uma vez por semana, até Nov/2017 percursos que variavam de 5 a 10 km em média. Durante esse mesmo tempo totalizei 268 km a um passo médio de 6.13 min/km, ou seja, um ritmo tranquilo. Meu treino mais longo foi de 12.78 km. Registros de um corredor amador iniciante.

Cada corpo reage de um jeito. No entanto, vale para todos a ressalva de respeitar nossos limites internos e irmos devagar, desde que sempre se vá para frente. Ainda não faz tempo desde o ocorrido, mas já percebo que voltei a um patamar pior do que aquele em que eu estava, procurarei um médico e pedirei alguma sessões de fisioterapia. Logo, concluo que o melhor era continuar no meu ritmo, perseverante e constante, mas aos poucos até obter o preparo que desejava em um maior prazo.

Só que o dia da corrida chegara e eu estava no ônibus indo para São Paulo. Naquele momento eu não podia mais desistir, embora havia pensado no fato nos dias anteriores. E se meus joelhos piorassem depois? Prejudicaria minha própria saúde? Esses eram motivos plausíveis, mas se os ouvisse enxergaria a mim mesmo como alguém que nunca tentou.

Pensei comigo uma frase que havia me marcado ao ouvir um vídeo da prof. Lucia Helena, sobre filosofia: “É preferível morrer na arena, do que nunca ter saído da platéia”. Eu morreria na arena, se meus joelhos pedissem arrego, eu caminharia. Mas não correr, não terminar os 15k, ficar na platéia, isso não poderia ser uma opção. Com a escolha de participar mesmo assim, já estaria na frente daqueles que não tentaram e o mais importante, cumpriria meu propósito.

E foi com essa determinação que eu encontrei meus primos no hotel, tomei outro café, só que agora mais leve, pus a camisa, a numeração de peito, a tira de registro do tempo no tênis e fui em direção aos portões de largada. Ali, a sensação de incerteza e nervoso foram levados pela chuva, que ora caía forte, ora dava uma trégua e tampouco atrapalhou o clima de descontração e alegria que pairava no ar. Lili parecia mais emocionada que eu, como se fosse a primeira vez dela. Ficamos uma hora esperando a largada porque tínhamos chegado cedo para conseguirmos um bom lugar com facilidade. E quando deu 9:00 a multidão de mais de 30,000 pessoas começou a andar, e depois a correr.

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Lili, no meio, e eu do lado direito da foto.

Nos primeiros 500 m entramos num túnel, o povo batia palmas e aquele som se potencializava elevando ainda mais a adrenalina. Eu acreditei que a tal energia, surgida pela emoção do momento iria me ajudar na corrida, mas não foi bem assim. Nos primeiros quilômetros o bendito joelho incomodou. Nos 5km chupei um gel rico em carboidratos que renovou as energias entre os 7km e os 10km eu senti o maior cansaço.  Depois dos 10km, já bem aquecido, não sentia o joelho, nem o cansaço me abatia tão rápido. Em todo o momento, Lili e eu fomos parceiros e não deixamos de correr juntos, no começo ela me esperava, e já no final, eu que segurei um pouco. E foi assim que passamos a linha de chegada, emocionados de mãos juntas, felizes por termos completado nosso propósito. Dessa vez, não buscávamos melhor tempo e me surpreendi porque eu fui melhor do que esperava. Cumpri meu propósito, fiquei aliviado, fiquei motivado.

Para concluir meu texto fico agora com a responsabilidade de comentar sobre o depois. Já estou ansiosíssimo para correr de novo, porém é necessário  cautela. Precipitar novamente não vale a pena. Já aprendi a conhecer meu corpo e meus limites, não quero parar de correr mais e para isso não vou dar mais passos pra trás, quero ir para a frente.

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Subida da Brigadeiro, a poucos quilômetros da chegada.

 

 

 

 

 

 

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